Diálogos do Vestir #3 - Beth Bastos

Nesta edição #3 do Diálogos do Vestir, convidamos a bailarina, coreógrafa e professora de dança Beth Bastos, amiga de longa data da marca, para construir imagens junto do fotógrafo Sandro Miano, seu marido e parceiro de criação, a partir de uma performance com nossas sedas impressas com ipê roxo. 

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Sua pesquisa em dança propõe reflexões e experiências que envolvem a percepção dos sentidos e os sentidos da imaginação, em um processo de desaceleração no tempo e espaço. 

Em um novo diálogo, Beth nos contou como o vestir permeia seu universo poético-corporal, suas experiências sensoriais, suas fantasias: texturas de uma vida de movimentos e pausas que inspiram. 

1.Qual a sua relação com o vestir?
Eu acredito que a moda é um discurso visual muito potente. 
O jeito que a gente se veste cria um discurso estético e político o tempo inteiro.
E meu caminho no vestir é sempre uma experiência sensorial, e também uma questão de escolhas. Eu nunca me visto porque está na moda ou porque algo é barato. Eu me visto fazendo escolhas, indo sempre atrás das sensações, que é algo conectado com o meu trabalho em dança.

Me visto pelos olhos, que é o primeiro sentido despertado, e pelas mãos.
A textura é muito importante pra mim, e ela acessa diretamente o espaço do conforto. Se é algo muito rígido, por exemplo, eu não uso. Minha pele não aceita. Só uso tecidos macios, largos e confortáveis no dia-a-dia. Na dança, as vezes eu uso tecidos justos, para criar tensão no corpo. 

Acredito que a roupa diz muito sobre você. Ela configura o jeito que você se move. E nos permite essa experiência da percepção que ativa a imaginação. 

Entrar em contato com a nossa fantasia, com símbolos. O contato com a fantasia é algo forte, que eu persigo desde criança.Eu sempre fiz as roupas das minhas bonecas com retalhos, com veludos, rendas. Se eu não fosse bailarina, eu seria estilista. 

Gosto também de saber a origem das roupas: os processos, os materiais.
E eu vejo isso na proposta da Flavia, que vai além das roupas. Desde a relação com o tecido, com a estampa, com os tingimentos, a pesquisa dela. 

2. O vestir também está muito ligado às suas memórias de infância? 
Sim, muito. Eu sou mineira de Itabirito, uma cidade conhecida pela atividade de minério de ferro. O nome significa pedra brilhante e pontuda. Cresci em uma casa muito criativa. Minha mãe era pianista, tocava nas minhas aulas de dança, e meu pai era engenheiro. Tive uma vida deliciosa. 

Somos 4 mulheres na família, e naquele tempo, íamos à costureira com minha mãe e eu sempre sabia o que queria. Eu desenhava os modelos, nunca quis copiar nada do que já existia nas revistas. 

Eu adorava lojas de tecido. Minha mãe tinha roupa para cada ocasião, era sempre muito organizado. Um roupa para ir à missa, ao balé, ao aniversário, ao baile, natal. Fui criada sempre com esse cuidado. No mês do aniversário, sempre ganhávamos uma roupa nova. Era muito especial poder escolher o tecido e o desenho. 

A fita métrica tirando as medidas é uma memória que eu adoro. A costureira medindo do ombro até a cintura. Eu subindo na cadeira pra ela medir o comprimento do vestido e da calça. 

As vezes as costureiras vinham em casa fazer pijamas pra família toda. Lembro do barulhinho da máquina costurando em casa. Elas no visitavam, almoçavam, e neste dia, a comida era especial. A hora de experimentar era muito prazerosa.

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3. Como começou sua trajetória na dança e quais são suas referências? 
Eu danço desde os 7 anos e comecei a dar aula muito nova. Aos 26 anos, vim para São Paulo para trabalhar com o Klauss Vianna, coreógrafo e bailarino.

Ele introduziu o trabalho de corpo na dança e no teatro. Eu o conheci na Bahia. Eu fazia balé em um corpo de baile de dança contemporânea. Fui do grupo Experimental do Corpo, e depois entrei no Grupo Primeiro Ato, de BH, e aí conheci esse coreógrafo. 

Pela primeira vez eu entendi que a dança podia ser mais prazerosa. Além de dançar, eu ficava feliz. Lembro de sentir minha coluna, de entender como aconteciam os movimentos, de pensar que eu podia respirar nas minhas aulas, ter presença, ter a relação somática, cognitiva. Eu pude compreender a saúde e o prazer. 

A partir daí, comecei a entender que eu podia passar isso para as pessoas.
Em São Paulo, eu criei um método de dança não convencional para crianças e adolescentes, por um viés da educação somática. Dei aula pra criança por muitos anos. Fiz um filme sobre os processos de criação com elas. Eu usava muito a fantasia no figurino. E colocava as fantasias espalhadas no chão. Antes de vestir, elas tinham que olhar que movimento a roupa sugeria. Os figurinos vinham da experiência do desejo, da escolha, do conforto, estética, política, de não gastar dinheiro à toa. 

E minha principal referência é a Pina Bausch. Eu queria dançar na companhia dela. Cheguei a fazer audição em 92, em São Paulo, e fiquei entre os finalistas. 


4. Conta um pouco sobre sua pesquisa com o corpo e o espaço.
Em minha pesquisa em dança, eu penso muito sobre a leveza e desaceleração. Em contraponto à loucura do capitalismo, do cotidiano. Provoco pausas longas, e com isso, o espectador pode também parar e observar o entorno.
Se algo te provoca a parar, você observa os detalhes, os pequenos movimentos: o peso, a gravidade, o apoio. Eu participei de um grupo de estudos sobre Bachelard na PUC com o psicanalista Nichan Dichtchekenian.
E comecei a pensar a Poética do Espaço no corpo. Eu consegui fazer a transposição que o corpo é a casa.

O corpo tem cantos e o meu trabalho é feito desses cantos. Você percebe as partes do corpo, as conexões, os corredores. Começa a construir arquiteturas do corpo. Eu acho que a dança é a arquitetura do corpo. Quando você se move, você trabalha com peso, gravidade, linha de tensão. Você faz o ninho no seu corpo. Ou joga fora e deixa um pouco de estranheza. 

O fato do meu pai ser engenheiro me possibilitou crescer vendo seus desenhos na prancheta. Eu adorava ver como você podia criar uma casa, sempre gostei de Arquitetura.

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E cresci pensando muito nisso. Fiz vestibular pra Arquitetura, mas logo em seguida eu comecei a dançar profissionalmente e a dar aula, então pedi transferência para Letras, pensando que seria mais fácil tocar as coisas em paralelo. Comecei a viajar pelo Brasil dançando, e acabei trancando a faculdade.

Em São Paulo, nas primeiras criações, fiz um trabalho sobre o mar. A terra e os devaneios do repouso: daí começou minha pesquisa com a pausa. E quando fui estudar o Bachelard encontrei uma forma de me ver de novo na relação com a arquitetura. Depois estudamos todos os capítulos da Poética do Espaço no Núcleo Pausa, meu núcleo de pesquisa em dança. Em todos os encontros, fazíamos leituras do livro.

Tínhamos a Casa Miani, um projeto do Paulo Mendes da Rocha, que era dos pais do meu marido, e ficou vazia. 

A partir dos textos, começamos a pensar os cantos da casa: cada um escolhia um canto, cada um tinha seu universo. A casa e o universo. Nós fomos trabalhando também o refúgio com o jardim. Achar cantos no jardim, seu próprio mundo, e achar isso no corpo também. Como isso refletiria na percepção do outro. 

Começamos as Performances-observatório no jardim, de olhos fechados, em pausa, com o som de metrônomos marcando tempos diferentes. Os bailarinos ficavam espalhados pelo jardim, e as pessoas podiam circular. Mas elas demoravam para perceber, para aterrar.

Os bailarinos faziam pequenos movimentos e permeavam o próprio público. Todos estavam andando e pausando. E todos estavam observando: os reflexos na piscina, a arquitetura, as plantas, e os bailarinos que traziam a presença da arquitetura com a presença deles. Desacelerando entre nós, e provocando a desaceleração.

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Durante o processo de construção dessas performances, trabalhamos o esgotamento do tônus, empurrando. Eles se moviam com a memória de empurrar algo. Esse movimento trabalhava o imaginário de uma superfície contra o corpo. Às vezes tinha algo para empurrar e às vezes era só imaginário. 

Os corpos se encaixavam, criando volumes, densidade, tensão. E, para parecer leve, tinham muita densidade. O pianista ficava com os pés na água, resistindo a pular na piscina. A Iluminação era feita com lanternas, criando aquela sensação de não ver mais, mas ainda assim ver algo: silhuetas, detalhes.

Fiz também um espetáculo lindo na garagem do SESC Pinheiros, que se chamava A Casa. Usei um tapete enorme Aubusson, do séc XVII, e um vestido de veludo e seda bege, feito pela Flávia. Era como se o tapete me engolisse, a memória da casa me engolisse. Junto com outras duas bailarinas, pensamos nas três infâncias de cada uma de nós, representadas por três objetos: o tapete, a porta e a escada. 

5. De que maneira o vestir também permeia sua pesquisa, fazendo conexões com esse corpo e as memórias? 
As roupas têm sempre parte importante nos meus projetos. Estão em meus processos, funcionam como elementos simbólicos. 

Eu fiz um projeto na Oficina Oswald de Andrade, onde eu sugeria que as pessoas levassem seus figurinos. E essas roupas propunham coisas. Movimentos, gestos. Eu também dou aulas onde criamos figurinos, estabelecemos certos temas. Hoje todo mundo de branco e preto.
Todo mundo de saia e blusa. Hoje é dia de São João, todo mundo de vermelho.

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Criei diversas atividades com as crianças e os figurinos, que contei anteriormente. E fiz muitas performances por São Paulo, sempre tendo o cuidado com o que vestíamos. A escolha de acordo com o contexto.
Porque a roupa dita, ela indica, sugere.

Nas performances da Casa Miani, pensamos sobre a proposta do brutalismo - uma construção que não tem muito acabamento, com elementos expostos, mostrando os materiais. E decidimos então usar roupas sem acabamento, que rasgaram, ficaram sujas, absorvendo uma certa memória do movimento. Mantendo a linguagem do brutalismo.

E gosto de pensar no vestir em paralelo ao corpo e à dança: as textura do corpo, as camadas: pele, músculo, osso. Como a sua pele percebe as superfícies? Como ela percebe a superfície de uma mesa, de um tapete: quente, gelado, liso, áspero, madeira, mármore, tecido. Gosto de propor essas experiências de observar o que se sente ao tocar as coisas.
São texturas na dança que também estão no vestir.

Acredito que a dança foi me ajudando a criar critérios ao me vestir também. Todos que chamo pra criar figurinos, conseguem sobreviver nesse lugar do sensorial, da fantasia, da leveza, das texturas. 

6. Como é o seu processo criativo e de onde surgem suas inspirações? Você cria sozinha ou coletivamente? 
Eu sempre tive uma relação muito forte com a imagem. Eu tenho 2 irmãos fotógrafos. E me apaixonei por um fotógrafo. Minha vida sempre teve a fotografia e uma relação muito forte com a composição. Meus trabalhos são muito ligados à poética do belo.

Se é um trabalho solo, eu vou muito dentro das minhas percepções. Eu sou muito guiada pelo instinto, intuição e impulso. Eu também trabalho muito com improvisação.  E para improvisar, você tem que estudar muito para que não fique aleatório. Geralmente, eu trabalho com estrutura. 

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Com o Núcleo Pausa, que existe desde 2014, como sou diretora, os bailarinos trabalham comigo pois se interessam pela minha proposta. Buscamos inspiração na literatura e na filosofia. Trabalhamos muito com textos, leituras, para aguçar a distância, a percepção. Ouvir de longe, ouvir de muito perto, só ouvir algumas palavras e deixar a imaginação te levar. Tem um pianista que traz elementos também, que fala como é a textura na música. Pensamos sobre o princípio da percepção, a relação sensorial-motora: trabalhar com o cognitivo. 

Atualmente, estamos trabalhando em cima de um livro chamado Gravity, do Steve Paxton, um dançarino experimental e coreógrafo americano, que fala sobre movimento, dança e vida. Ele diz que gravidade não existe em nossa vida, ela “postula”. 


7. Como foi a construção das imagens do Diálogos do Vestir? 
Quando eu recebi as peças, eu achei tudo lindo. Depois fiquei dois dias sem olhar as roupas. Nem vesti, pois precisava de um momento especial pra vestir. Esperei esse momento. E cada roupa que eu vestia, eu esperava o que aquilo me sugeria. De atmosfera, de gesto. 

O Kimono sugeriu giros porque ele é transpassado, uma parte cobre a outra. Esperei um pouco que a roupa me dissesse: vai por ali, vai por aqui. 
A roupa sugere tensão, contração e relaxamento, uma roupa em cima da outra.

A roupa larga, a roupa mais justa. A saia é muito diferente da calça. Fiquei então experimentando o que cada roupa dizia. Eu senti nas roupas o conforto que busco. A seda estimulando esse prazer na pele. 

Nas fotos, não quis mostrar muito o rosto. Podendo ser várias mulheres, criar uma ficção. Desta forma, descolamos a roupa de uma única pessoa, de um personagem. Gostei de me esconder, de me abrir para questões de ficção. 


8. As fotos foram feitas pelo seu marido e parceiro de criação, Sandro Miano. Vocês sempre trabalham juntos? Existe uma co-criação que transita da linguagem da dança para a linguagem da foto? 

Ele me acompanha desde sempre. Muitas coisas que eu faço, ele fotografa.

A foto me alimenta e ele é um estudioso das composições, filho de pintor, tem uma pesquisa linda no preto e branco, é muito criterioso em relação à poética do espaço. 

A minha casa é muito composta pelas coisas dele. Temos composição em tudo, muito cuidado com cada detalhe. Ele tem sempre esse olhar de quem fotografa.E temos sempre muitas conversas e muita troca. Nosso processo de criação não é sempre igual. Já fizemos um espetáculo com cenografia do André Canadá, que começou pela foto do Sandro. Ele fotografou a praia onde temos uma casa. E tudo começou com as fotos do mar.

O André criou uma saia enorme de papel de seda, e eu saia com o dorso nu de dentro dessa saia. Pequenos movimentos de colunas que vou arrastando essa saia com barulho do mar. Pensando sobre a ideia de mar e terra. O meu mar é a minha terra. A terra dentro de mim.  

Para o Diálogos do Vestir, trabalhamos com nosso filho, Antonio Miano, que é cineasta, criando imagens juntos, em nossa casa, a partir dos percursos que a roupa sugeria. 

Performance: Beth Bastos
Fotografia: Sandro Miano
Assistente: Antonio Miano

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