Diálogos do Vestir #1 - Cassiana Der Haroutiounian

Com o desejo de investigar o campo poético e filosófico do vestir, e refletir sobre sua potência como linguagem criativa e social, lançamos nosso novo projeto, Diálogos do Vestir. 

Nos conectamos a mulheres que admiramos para ouvir sobre suas relações com o vestir e aprender qual o papel das roupas em suas vidas.

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Estar à escuta: vestir é dar abrigo íntimo ao corpo, embalá-lo, senti-lo e celebrá-lo. Mas é também contar uma história, comunicar uma ideia, tecer um diálogo, se declarar.


Nesta edição #1, convidamos a artista Cassiana Der Haroutiounian, que a partir da experiência de confinamento, desenvolveu uma série de retratos que refletem sobre as diferentes camadas de pele que nos habitam, dando continuidade à sua pesquisa sobre o corpo. 

Fotógrafa, diretora, editora de fotografia e jornalista, Cassiana vive entre São Paulo e o mundo, mergulhando em espaços de tempo e congelando entornos em imagens etéreas, vivas e sensíveis.

Peças desenhadas em diferentes coleções se reencontram neste projeto para tecer novas narrativas. Para comprá-las, clique aqui.

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Qual sua relação com o vestir?
O vestir é uma extensão do nosso corpo. Uma identidade que você escolhe sobrepor à sua, como uma outra pele. Que se molda e se adapta às formas do corpo. Um abraço, um encontro. Cada corpo deixa sua própria história numa peça de roupa. Ela é viva, tem vincos, amassa, absorvendo marcas e cicatrizes dos movimentos individuais.

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Como se deu o processo criativo das fotos?
Desde 2012, quando vesti uma capa de espelhos na Armênia, comecei a trabalhar o meu corpo como um território, em autorretratos, ainda esporádicos, pontuais. Durante a quarentena, fui eliminando camadas e me colocando em carne-viva nos autorretratos, em casa. As fotos foram acontecendo junto ao meu sentir no isolamento, como um decantar de histórias passadas, vividas, saudosas e marcadas na minha pele. Eu, que por muitos anos estive pelo mundo, entre idas e vindas, nesse processo de recolhimento, naturalmente, passei a me relacionar mais com a minha casa que sempre foi minha redoma.

Passei a observá-la, perceber ainda mais os organismos vivos, os sons, as sombras, o raio de luz, o tempo dilatado, e o meu existir nela. 

Passei a apropriar-me do meu corpo nesse espaço latente.

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Sempre mantive a casa em tons de cinza e madeira, mas nesse período, fui sentindo falta de cor, e de ter climas quentes e mais aconchegantes no meu espaço de acontecimento, de devir na minha casa-território. Com uma obsessão por tons terrosos, pesquisei como pintaria os ambientes com cal e me joguei. 

Consegui trazer para meu lar um pouco das montanhas da Armênia (que sempre foi meu refúgio para abrir feridas e fechar cicatrizes). Fazer retratos nesse novo espaço foi uma vontade imediata, pensando sobre as cores da pele e suas diferentes camadas, nessa poética de sempre, na casa como uma pele-abrigo, uma paisagem que se transforma como o corpo.

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Tem um trecho bonito no livro “A Poética do Espaço” do Gaston Bachelard que ele diz:  “Parece que a imagem da casa é a topografia do nosso ser mais íntimo”. Você acha que isso se relaciona com seu trabalho?

Absolutamente (Eu amo o Bachelard e faz parte de toda minha pesquisa desde 2006). A minha casa foi se tornando a cada dia, meu útero. Um abrigo dos meus mais profundos devaneios, protegida.  A casa adquirindo as energias físicas e morais de um corpo humano. É tempo de habitar as nossas solidões e os nossos laços. Essa casa-território têm valor de concha, onde nós teremos a chance de experimentar nossas estradas, encruzilhadas e de cadastrar nossos campos perdidos e inscritos em nossas almas. A casa é o que mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida, já dizia ele. É corpo e alma. O primeiro mundo do ser humano. Nesse momento atual, a casa atua como gaiola e como mundo. Se tornou minha ilha e parte do meu ser. Interajo com ela de maneira absoluta e esparramada. Com tudo o que ela carrega. Com cada história, cada afeto, cada sonho, cada saudade, cada sorriso e cada lágrima. Minha casa virou meu laboratório de peles – tenho colecionado cada folha que se desprende da minha pequena florestinha, observando o seu processo de cicatrização. 

Como surgiu a ideia de fotografar sua mãe na casa, indo além dos autorretratos? 

Durante esse processo de quarentena, voltei a fazer um acompanhamento de projeto com uma curadora que amo e vive em Lisboa e isso tem me feito pensar muito sobre todas as minhas camadas físicas e emocionais no ser criativo.

Quando foram surgindo os autorretratos, fomos discutindo o que era essa pele, o que era essa casa, o que era o habitar um corpo. E entre tantos devaneios, a minha mãe como minha primeira pele, meu primeiro mundo, minha primeira morada. Senti vontade de ter a minha mãe registrada como uma parte de mim (ou eu uma parte dela). Sempre foi de forma mais inconsciente, sem tê-la como o foco de um projeto. E com todos os questionamentos nessa casa-ilha, ela faz muito sentido.

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Olhando as fotos, por mais que tenhamos corpos e posturas diferentes, muitas vezes me vi nela. Engraçado que essas camadas femininas sempre existiram no meu processo. Antes de fotografá-la, sempre fotografei minha avó materna, em produções aleatórias. Ano passado, em uma viagem para a Itália, depois que meu avô faleceu, desnudei minha avó, literalmente e fui transformando sua pele, com um tempo diferente do meu, em mais uma camada do meu próprio corpo.

Minha mãe-pele nessa pele-roupa, em minha pele-casa foi bastante simbólico.

Além da intimidade e cumplicidade que temos, ela sabe exatamente qual o mood que eu busco em minhas imagens, então muitas vezes nem foi preciso dirigí-la… ela se entregou ao ensaio de corpo e alma. <3
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A folha é um elemento presente em várias fotos. Ela está conectada à experiência de re(descobrir) o espaço da casa?

Como citei antes, fui colecionando essas folhas que se despegavam das plantas de casa, e fui observando esse processo do tempo, dia após dia, fotografando as transformações que ocorriam, mudanças de cor, feridas que se abriam. Cada vez que elas secavam mais, mais se pareciam com pedaços de pele. Umas mais firmes, outras completamente frágeis, quase rasgando.

Decidi experimentá-las em meu corpo, de novo, como uma outra pele que me habitava. Ela é a morte. Um descamar. Afinal, nós vamos eliminando e sobrepondo peles ao longo de nossa jornada, né? Quantas peles já perdemos? E quantas ainda estão por vir?

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Um dos seus projetos anteriores à quarentena também trata do corpo e do vestir. Pode nos contar um pouco mais sobre ele? 

Eu tenho uma relação com a Armênia e as montanhas de lá desde 2010, quando fiz meu primeiro trabalho nesse território, terra dos meus antepassados. Morei por 4 meses no país para realizar um projeto sobre as mulheres contemporâneas, que no final, acabaram virando uma extensão do meu próprio eu. Depois veio a vontade de caminhar pelas montanhas nevadas com uma roupa de espelhos, como algo que me esconde da paisagem e ao mesmo se torna ela. A roupa funciona como minha própria pele que reflete essa luz, que reflete esse lugar enquanto permaneço nessa bolha, nessa redoma, nessa casa criada por mim, inteira de espelhos, onde a única coisa que eu escuto é o som abafado dessa paisagem inóspita que é a Armênia, coberta por um manto branco de neve, as batidas do meu coração e meu inspirar e expirar.

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No começo de 2019, decidi percorrer essas mesmas montanhas nevadas, nua, agora sentindo cada pedaço desse gelado e dessa topografia ardendo em minha pele. Foi libertador. Cada etapa dessas fotografias todas foram fazendo parte das minhas cicatrizes, das histórias que eu fui vivendo e desvivendo ao longo dos anos. Por isso esses autorretratos na minha casa são tão simbólicos. Eles são o resultado de um desnudar-se ao mundo e a mim mesma.

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Suas fotos tem uma estética etérea, com muitos desfoques, movimentos, permeando um universo entre o real e o onírico. Quais são as suas referências e como se deu essa construção de uma linguagem própria?

Acho que a questão do tempo nas minhas fotografias e nos meu projetos é algo bastante presente e que tem muito a ver com a Armênia. Minha trajetória com a fotografia e esse olhar foram se lapidando e tendo uma unidade depois de experimentar esse tempo suspenso que a Armênia me trouxe, a partir de 2010. As cores, as texturas, os vilarejos, as montanhas, tudo isso foi se acumulando no meu processo criativo (já somo 15 vezes entre idas e vindas a esse pedaço de terra do Cáucaso). Eu gosto de transformar, fantasiar e tatear o mundo que habito. Quando olho para todos os meus projetos, percebo esse território inventado. Não importa se tem alguém ou não, é um território que eu inventei. Que partiu do ponto de inventar uma Armênia fora do mapa. Os personagens de minhas imagens quase sempre tem um elo afetivo muito forte com minha história. Pessoas e paisagens acabam tendo o mesmo peso.E cada vez mais percebo que é um caminho existencial, de também me tornar um território nesse mundo. Com o tempo dilatado, o espaço suspenso, o entre.

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Sendo uma mulher que vive em diferentes interseções de criação de imagens (foto, video, edição), como suas roupas expressam suas experiências? 

Assim como os alimentos que comemos, o vinho que tomamos, o lugar que você escolhe chamar de casa, o vestir é uma camada que você escolhe sobrepor a sua pele. 

Tudo faz parte da experiência de vida que você pode e quer viver. Esse entendimento da roupa como uma extensão da minha personalidade, é fundamental para a escolha do tecido, do corte, da cor que uso.

Um vestir te pontua. Uma roupa te acolhe, te permite o devaneio como uma casa. O toque na pele te permite a memória, o sonho, te faz acessar lugares, viagens, pessoas e outras peles.

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Tem um ser e um estar no mundo que é preenchido pela roupa. Ela é a pele que você decide habitar o mundo. E as roupas da Flavia são como um prolongamento do meu eu, fluidas, naturais, selvagens e muito autorais. 

Eu sempre fui apaixonada pela marca e pelos tons terrosos e claros que ela propõe. Parece que é quase sempre uma paleta que eu vejo o mundo, ou que eu decido enxergar o mundo que invento pra chamar de meu.
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