Diálogos do Vestir #6 - Caia Ramalho

Diálogos do Vestir #6 - Caia Ramalho

A fotógrafa e videomaker Caia Ramalho é a convidada da edição #6 do projeto Diálogos do Vestir. Colaboradora de longa data da marca, sua trajetória cruza caminhos com os nossos, num processo rico e afetuoso que foi muito importante na construção de tantas imagens e narrativas das nossas coleções. 

 

 

Entre autorretratos feitos em sua casa e palavras generosas, Caia nos permite permear sua intimidade, conhecer uma relação com o vestir que está muito conectada à liberdade, às vivências, reconhecimento e expressão individual, assim como estão seus processos na fotografia. Ser, estar e criar da forma que se deseja.

Fazemos roupas para tecer diálogos, costurar pontes, construir junto linguagens para novos e outros futuros. 

 

Como é a sua relação com o vestir?

Tenho muita memória de como minha relação com o vestir primeiro se estabeleceu no meu corpo. Lembro de ser muito pequena e amar os extremos: das sobreposições ao corpo nu. Nas sobreposições, eu amava os vestidos usados por cima de calças e blusinhas de manga comprida, tenho registros das composições que eu fazia com as tiaras e fivelas também. Quando íamos para a praia, somente uma canga em volta dos meus ombros ou enrolada na cabeça, era o suficiente. 

Quando começo um período de socialização, ir para escola, conviver mais fora de casa isso se transforma. Por volta dos 4 anos, compreendo que vestir-se com liberdade não é uma realidade. Ali é quando sinto o peso de ter que me enquadrar nas expectativas, principalmente de gênero, colocadas sobre mim. Na infância e até parte da adolescência, as roupas viram sobre esconder o meu corpo e a necessidade de proteção dos olhares. 

Nos últimos anos, quando começo a reconhecer o meu corpo como possível, volto a sentir o vestir como algo que faz parte de quem eu sou. Me possibilitando experienciar e criar a partir de mim mesma e das minhas vivências, como eu quero me colocar para o mundo. Ainda hoje, o vestir é desafiante e me coloca em diálogos constantes comigo mesma. Escolho aproveitar esses momentos com leveza e respeito. Hoje, o vestir, é um dos meus maiores companheiros nos meus processos de reconhecimento de quem eu sou.

 

Você tem uma história com a marca. Conta um pouco desse encontro. 

Minha história com a marca começa em 2016. Logo no início mergulhei com tudo no universo que compunha a Flavia Aranha. Conheci a Flavia em um curso de tingimento natural e alguns meses depois entrei para a marca para cuidar das redes sociais. Vivi tudo da maneira mais imersiva que pude. O grau de identificação com o entorno fez com que eu tivesse uma experiência intensa que acredito ter moldado muito o meu início de construção de olhar para imagem. 

Ao longo dos anos, passei por vários setores dentro da marca: comunicação e marketing, VM, estilo, viagens... Não apenas registrando, com vídeos e fotos, mas também em momentos exercendo. Como quando eu desenhava peças para a linha José. Foi trabalhando com a Flavia que entendi que o caminho que eu mais me identificava era o da criação de imagem. Ao longo dos anos, tenho diversas divagações sobre o que faz parte da minha visão e o que faz parte da estética da marca. Hoje entendo que é tudo muito borrado, e que carrego muito da Flavia e do que vivi esses anos todos ao lado da marca em mim.

 

E como foi sua trajetória na fotografia?
Sua formação, os caminhos traçados, as experiências. 

De criança lembro de estar em contato com imagens de moda constantemente em casa. Meu pai, que tem um laboratório fotográfico, levava para casa aquelas fotos que “davam errado” e eu amava pintar imagens em cima do papel fotográfico. O desenho foi por anos a forma como eu melhor me expressava. No final da adolescência resolvi cursar faculdade de moda, e nos primeiros anos comecei em um estágio de jornalismo de moda. Eu também gostava da escrita e do que envolvia o contexto de comunicação. Quando criança, eu também sonhava em trabalhar em revista e em uma redação. Fiquei um pouco mais de 2 anos trabalhando lá e com o tempo passei a querer ilustrar as matérias que eu escrevia com as minhas fotografias. 

A gente fazia muita cobertura de eventos de moda, como SPFW, Minas Trend, Fashion Rio... Além de entrevistas semanais. Eu sempre estava com a câmera. Fui encontrando formas de criar uma linguagem mesmo que em espaços pouco propícios para isso - como backdrops ou camarins. Depois deste emprego tive uma experiência rápida e traumática trabalhando com estilismo, como assistente de um estilista. E aí depois disso tive a possibilidade de trabalhar com a Flavia.

Depois de um tempo assinando as campanhas e lookbooks da marca, trabalhando internamente, em 2017 fui procurada pela revista Harper’s Bazaar para fazer uma cobertura de SPFW. Fiz as fotos do evento e logo em seguida fui chamada para assinar um editorial para a revista. Desse momento em diante as coisas aconteceram muito rapidamente. Tentei conciliar o meu trabalho na Flavia com os trabalhos freelancer de fotografia, mas isso durou uns 4 meses, e então resolvi me dedicar somente aos trabalhos com foto. 

Nesses 5 anos, pude conhecer pessoas incríveis e profissionais que mudaram a minha vida. Entrei em um mercado extremamente difícil, complexo e competitivo. Esse foi o momento que mais enxerguei a importância de redes de apoio e trabalho em equipe. Sou muito grata por ter conhecido pessoas alinhadas com aquilo que acredito para construção de presente e futuro, isso é o que me mantem no mercado até hoje. Essas conexões, que levo para a vida. Hoje reconheço um mercado em transformação, com muito ainda para caminhar, mas que com certeza tem uma outra cara do que tinha há 5 anos atrás. Com a fotografia sinto que realizei e ainda realizo meus sonhos.

 

Você trabalha essencialmente com fotografia de moda. Como foi a construção da linguagem? O processo, as referências, as inspirações?

Em muitos processos investigativos, entendi que minha construção de linguagem vem essencialmente das minhas vivências. Trago muito da minha criança e a escuto. O acesso aos arquivos de família (desde fotos dos meus pais em suas juventudes passando por relatos em áudio da minha avó) são grandes indicadores para que eu entenda as minhas escolhas criativas e imagéticas do hoje. Para além disso, eu amo me relacionar com o contemporâneo – artistas com quem me relaciono ou que estão ao meu redor, as produções que estão sendo feitas na moda e também fora dela. Acredito que esta é uma construção viva, que se transforma o tempo todo. Estou diariamente renovando e complementando os meus processos. 

 

Você contou que estava criando uma marca de peças próprias com a sua irmã. Como esse projeto surgiu?

Eu e minha irmã, a Miu, resolvemos nos juntar para criarmos juntas um espaço que pudéssemos nos encontrar com mais frequência. Inicialmente, era somente sobre juntar nossas ideias e nosso amor por trabalhos manuais, principalmente o crochê, e propor uma constância. Resolvemos nomear de Miucai. 

Em um momento do ano passado, a Teodora Oshima viu o que estávamos produzindo e resolveu nos chamar para uma collab para um de seus lançamentos. A gente desenvolveu um top + duas bolsas em parceria com ela – e aí decidimos nos lançar como marca também. Na Miucai priorizamos principalmente os processos e estamos ainda em um momento de entender qual caminho que queremos seguir enquanto marca, então ainda não realizamos vendas, produções, etc. O que produzimos é geralmente feito no meu corpo ou no da minha irmã. No agora, estamos experimentando nossas vontades, fotografando e divulgando aquilo que criamos! A gente tenta tirar o peso de precisar ser uma marca que corresponde às demandas de um mercado tradicional da moda. Por enquanto é o que faz a gente feliz!

 

Você acha que o mercado da moda se transformou e tem sido mais aberto, sensível e responsável com questões de identidade de gênero, inclusão e diversidade?

Falando de um lugar muito íntimo e pessoal, acredito que o mercado esteja em transformação, porém de forma extremamente lenta e atrasada quando falamos sobre inclusão, de fato. Na área em que atuo, da fotografia de moda e publicidade, que é do que consigo falar com mais propriedade, enquanto travesti sou a única na maioria das vezes. Consigo contar nos dedos quais profissionais trans que estão de fato inserides no mercado e se sustentando de seus trabalhos na área. Ainda vejo que o esforço está muito mais em uma ideia de representatividade do que em pensar politicas que de fato transformem esse cenário de exclusão.

 

O que você ainda deseja criar?

Essa pergunta é muito difícil, por que sinto que estou diariamente com energia de criação em mim, que acaba direcionada para vários caminhos do dia-a-dia. Sonho muito grande ao mesmo tempo que abraço com toda força aqueles sonhos menorzinhos também. Cada trabalho para mim é uma comemoração e sinto que consigo mergulhar em tudo aquilo que me proponho em estar. Desejo continuar criando imaginários, possibilidades de sonhos, memórias... Seja na fotografia, vídeo, escrita, desenho, roupa. Se eu fosse dizer de forma mais concreta, hoje desejo publicar um livro, que parte do meu texto “Foi a primeira vez que vi o corpo que sou hoje existindo na minha infância”.

 

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