Diálogos do Vestir #5 - Juliana Maia

Diálogos do Vestir #5 - Juliana Maia

Artista têxtil, Juliana Maia nasceu no Rio, cresceu em Recife e vive em São Paulo há mais de 10 anos. Formada em arquitetura, suas experiências têxteis começaram na infância, com a avó que bordava e fazia tapetes na talagarça.

Mais tarde passou a explorar possibilidades de forma bem intuitiva, a partir de gravetos que encontrava na rua e depois decidiu aprender tear formalmente.

Suas pesquisas exploram os pedaços como parte essencial de um todo movente e mutável, que se constrói a partir das relações estabelecidas em cada momento.  

Juliana caminha pelo fazer de muitas coisas. Retalhos, bordados, linhas, tecidos criados no tear de pente e de prego, papéis, galhos, arames e tantas outras coisas são matéria-primas para suas peças. 

Em uma manhã solar no último dia de Março, Dani Lopes fotografou a artista em seu ateliê, vestindo nossas peças de algodão orgânico da coleção Mulher Aranha: A Teia, entre paisagens tecidas e muitos desejos que agora se abrem de porta pra rua.

 

Qual a sua relação com o vestir? Existe uma conexão do seu trabalho têxtil com o que você veste?

Eu gosto demais de fazer composições de peças, tanto no meu trabalho como artista, como no vestir. Acho que por isso, eu sempre fui a pessoa que se arruma pra ficar em casa, nunca tive uma roupa velhinha surrada pra ficar em casa, sabe? Aquele lance de acordar e continuar de pijama é quase impossível pra mim.


Tenho horários bem definidos de trabalho no ateliê, quase que como bater ponto na firma, começo às 9h e termino às 21h. E venho para o ateliê, descendo a escada da minha casa, já pronta pro trabalho. Com roupas de sair (?). Uma interrogação porque eu nunca me relacionei assim com as roupas, nunca tive essa divisão de roupas de sair e roupas de casa. Colocar uma roupa, pra mim, está relacionado com o vestir peças, ou o expor peças.

Penso muito também nessas peças como relação com o corpo e com o espaço. Quando preciso trabalhar no tear, escolho peças com calça, ou que me deem alguma flexibilização no corpo, pois me movimento demais, e não dá pra estar com uma roupa que me limite. Já quando estou na mesa costurando, desenhando, no computador ou até bordando e fazendo crochê, eu me libero mais para escolha das peças, pois meu corpo não exige tanta mobilidade, e aí a roupa pode ser mais enrijecida, ou um vestido e saia. Tenho um espaço em tons bem terrosos, com bastante presença da madeira, em suas mais variadas tonalidades. Penso nesse espaço como cenário tanto para as minhas peças de arte, quanto para o meu corpo vestido.

Daí a escolha das peças de roupa geralmente vão para cores mais vibrantes (a depender do sol que entra) ou de cores mais calmas (a depender do sol que se esconde). Parece uma loucura pensar nisso ao me vestir, mas acredito que tem muita relação com a forma que eu trabalho, de pensar nas relações entre os pedaços que teço.

 

Fala da sua trajetória: como começou com o tear manual?

Eu comecei a tecer bem intuitivamente, lá em 2015. Catava gravetos na rua e levava pra casa para absolutamente nada, só porque achava alguns bem bonitos. A partir daí comecei a tecer nesses próprios gravetos e fiz muuuuitas peças, e fui vendo que tinha algo ali que eu não sabia exatamente o quê.

Dos gravetos fui para os teares de prego. Mas ainda bem experimental e intuitivo. Resolvi então aprender a técnica, já que quanto criação e experimentação já tinha dado o primeiro passo. A técnica aprendi com Tiyoko Tomikawa e Nádia Resende, duas grandes tecelãs de São Paulo. Passei 6 meses frequentando o ateliê da Nádia me aprofundando no tear de pente liço e me adentrando no tear de pedal.

 

Você já pensou em produzir roupas ou seu interesse sempre foi de criar objetos de arte e peças utilitárias? 

Meus desejos são bem amplos dentro da arte têxtil. Não me limito a uma única técnica, nem a um único objeto. Então caminho pelo fazer de muitas coisas, seja uma tapeçaria para parede, para o piso, para mesa, uma luminária, estampas de mobiliários, de roupas e até objetos vestíveis. Minhas últimas peças feitas no crochê  estão me pedindo para habitar corpos, e logo logo sairá algo nesse sentido.

 

O que você explora na sua pesquisa artística? 

São muitas pesquisas que permeiam o meu processo. Mas sempre trago os pedaços nas minhas obras. Que o todo nunca existe, e que o todo é sempre movente e depende das relações que são estabelecidas em determinados momentos. Que o todo só existe pelas partes, e que se uma única parte se desloca, o todo se altera. Talvez seja sobre as relações, o que posso eternizar delas, e como permitir e aceitar os deslocamentos da vida. Atualmente venho explorando a questão do mal feito nas artes, através do bordado e no crochê. Me sinto mais presente e mais viva no ateliê nesse novo momento. Deixando o acaso me guiar e aberta pros erros. No bordado, retirei o bastidor, que é bastante utilizado pelas bordadeiras para deixar o tecido bem lisinho durante o puxar dos fios. Retirando esse suporte, eu permito que o tecido se enrugue quando ele quiser, solto as minhas mãos para não me preocupar com o liso, e nesse processo de enrugar, o tecido vai criando  formas e volumes, deixa de ser retangular e plano. É lindo presenciar o acaso, e todas as suas infinitas variantes. É assim a vida, né?

 

 

Como é o seu processo criativo no dia a dia? 

Esse é um tipo de pergunta que poderia ser escrita para virar livro, de tanto que se tem a dizer, porque o processo é amplo e não se limita. Mas tentarei! No ateliê me permito a explorar diversas técnicas do têxtil, como a tecelagem, o bordado, costura, crochê, e a experimentar possibilidades.

De modo geral vou tecendo pedaços que não dão em nada, como se eu me permitisse estar nas interrogações, estar no que não sei. Então vou criando esses pedaços repetidas vezes, infinitas, quase que um mantra, ou uma loucura. Fazer, apenas fazer! Aproveitando o caminho e o processo. Depois me percorro outro caminho, que é de olhar para todos esses pedaços soltos e ir juntando uns nos outros.

É curioso esse processo de junção, porque, como nada está determinado previamente, tudo pode acontecer. É como se eu ampliasse os limites da liberdade. Então vou juntando e costurando esses pedaços tecidos, formando um todo que pode ser alterado com o tempo.

 

Notei cores que estão sempre presentes no seu trabalho: cores quentes, tons terrosos. É intencional? Como é a sua relação com a cor, como ela permeia seu trabalho? 

Vejo as cores muito como sensores, ativadoras do sentir. Nunca estudei teoria de cor, e pretendo continuar nessa certa ignorância, pra justamente tratar as cores como sensação que começa nos meus olhos, vai se distribuindo para todo o meu corpo e se estende para o espaço, e ativa um outro olho, que se distribui em outro corpo e permeia um outro espaço

 

Você nasceu em Recife mas se mudou para São Paulo já tem 10 anos. Como foi esse percurso e como as cidades influenciam sua vida e seu trabalho?  

Na verdade, nasci no Rio de Janeiro, mas por uma eventualidade da vida. Toda a minha família é recifense, mas meus pais se mudaram a trabalho pro Rio e viveram lá por 10 anos, e calhou de eu nascer nesse período. Mas depois voltaram para Recife, onde passei boa tarde da minha infância até a fase adulta. Então digo que sou recifense porque toda a minha bagagem de vida e formação veio de Recife.

O que mais influencia o meu repertório, falando de cidade, é a relação vivida com a minha avó materna, lá em Recife. Como uma mulher nordestina, lá pelos anos 40, minha avó refletia o retrato mais comum de uma geração: a mulher que não trabalhava, que se dedicava aos filhos e netos, que praticava todas as técnicas têxteis para presentear e para "passar o tempo". Vendo esse cenário com os meus olhos de hoje, percebo que era uma forma mais de se colocar no mundo, como transferir algo velado que ela carregava para algo mais palpável e visível. E eu lá, uma criança curiosa da avó, sentada ao lado dela, passando horas observando aquela mão inquieta com as agulhas, logo quis aprender. Começou com o crochê e passou para o bordado na talagarça, onde ela fazia tapetes.

Recife enquanto cidade geográfica, me remete bastante aos pedaços que eu teço para formarem um todo. Porque é uma cidade cortada por dois rios, onde se formam ilhas que são conectadas por pontes. Esses fragmentos de cidade que formam um todo. Além da presença constante das águas, sendo dois rios e o mar. Daí nasceu meu trabalho entitulado "De Água Doce", onde faço essa relação das águas com o carretel de linha de costura. 

 

 

São Paulo me permite ser exatamente quem eu sou. Toda a minha trajetória de artista começou aqui. E dessa forma, observo muito todas as casas em que passei. São elas que me norteiam e que me remetem a determinadas fases da vida. Por conta dessa minha insistência em trazer a tona as memórias das minhas casas em São Paulo, eu tento tornar essas memórias eternas, tento guardar um tanto do que passou para continuar comigo. Assim nasceu a minha série "Das Casas Em Que Passei e Que Nunca Existiram", onde caminho pelos cômodos das minhas casas e vou recolhendo pedacinhos de espaços. A cada caminhada, eu guardo em saquinhos os pedaços, para cada saquinho, uma caminhada. Após guardar, levo para a máquina de costura esses pedaços e recrio novas casas; casas imaginárias, mas que carregam memórias eternas das casas que existiram.

É algo assim: enquanto em Recife eu dei meus primeiros passos, tateava o que eu poderia ser, em São Paulo, de casa em casa, eu cresci e me firmei o que sou.

 

Você é arquiteta de formação e ainda atua com projetos como autônoma. Como você acha que o universo têxtil dialoga com seu trabalho em arquitetura?

Sim, me formei em arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco, em 2005. Trabalhei como arquiteta lá em Recife e aqui em São Paulo. Passei por alguns escritórios, construtora e até em banco. Em 2015, quando iniciei meu processo artístico, a arquitetura era bastante presente, era ela que me sustentava financeiramente, e a tecelagem como trabalho secundário. Mas em algum momento da vida, diria que lá por 2018, a arquitetura passou para um trabalho secundário e a tecelagem como principal.

Eu sempre relaciono essa mudança de profissão quando fui morar no Centro, em um apartamento enorme, que me possibilitou ter um ateliê bem amplo. Foi como se o ateliê tivesse tomado conta do espaço e da minha vida. Tem 4 meses que estou num ateliê separado da casa, voltado pra rua, que ainda não sei o que vai ser, mais pra frente saberei e conto pra vocês que relação isso terá com o meu trabalho.

 

Você também dá cursos livres no ateliê. Como é essa experiência de ensinar e de colaborar no processo criativo de outra pessoa?

Eu dou aulas de tecelagem manual, utilizando o tear de prego, de pente liço ou de pedal. Também dou aulas de costura básica, bordados e crochê. Eu amo ensinar, me alimento muito das relações com os alunos. Comecei a dar aulas logo quando comecei a aprender tecelagem. Meio ousada, porque não sabia muito, mas o que eu sabia já dava pra ensinar. Após 6 anos investindo muito em aprender, consigo ensinar ainda mais, mesmo tendo limitações, essas sempre terei! Mas acredito no ensino como prática da experiência. Se colocar no lugar do experienciar coisas, sem pressa em saber o que será.

Quando eu montei meu ateliê no apartamento do Centro, comecei a investir em materiais e equipamentos, e consegui visualizar o meu maior sonho de vida, que é ter um ateliê/escola voltado pra rua. Na época era um sonho que eu ainda precisava realizar, mas com a mudança para a casa, em dezembro de 2021, ele se tornou real. Hoje tenho um ateliê aberto pra rua, onde abro as portas para os alunos frequentarem e se colocarem nesse lugar da experiência têxtil. 

 

Entrevista Maria Beatriz Machado
Fotos Dani Lopes 

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